sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O lixo - Luis Fernando Verissimo

Com vocês... um dos grandes mestres da literatura brasileira...



Encontraram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
— Bom-dia.
— Bom-dia.
— A senhora é do 610.
— E o senhor do 612.
— É...
— Eu ainda não o conhecia pessoalmente...
— Pois é...
— Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
— O meu o quê?
— O seu lixo.
— Ah...
— Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
— Na verdade sou só eu.
— Mmmm. Notei também que o senhor usa muita comida em lata.
— É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
— Entendo.
— A senhora também...
— Me chame de você.
— Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
— É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
— A senhora... Você não tem família?
— Tenho, mas não aqui.
— No Espírito Santo.
— Como é que você sabe?
— Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
— É. Mamãe escreve todas as semanas.
— Ela é professora?
— Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
— Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
— O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
— Pois e...
— No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
— É.
— Más notícias?
— Meu pai. Morreu.
— Sinto muito.
— Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
— Foi por isso que você recomeçou a fumar?
— Como é que você sabe?
— De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
— É verdade. Mas consegui parar outra vez.
— Eu, graças a Deus, nunca fumei.
— Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo.
— Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
— Você brigou com o namorado, certo?
— Isso você também descobriu no lixo?
— Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
— É, chorei bastante. Mas já passou.
— Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
— É que eu estou com um pouco de coriza.
— Ah.
— Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
— É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
— Namorada?
— Não.
— Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
— Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
— Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
— Você já está analisando o meu lixo!
— Não posso negar que o seu lixo me interessou.
— Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
— Não! Você viu meus poemas?
— Vi e gostei muito.
— Mas são muito ruins!
— Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
— Se eu soubesse que você ia ler...
— Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
— Acho que não. Lixo é domínio público.
— Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
— Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
— Ontem, no seu lixo...
— O quê?
— Me enganei, ou eram cascas de camarão?
— Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
— Eu adoro camarão.
— Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
— Jantar juntos?
— É.
— Não quero dar trabalho.
— Trabalho nenhum.
— Vai sujar a sua cozinha.
— Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
— No seu lixo ou no meu?

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Banalização da vida humana

Boa tarde galera!



Hoje pela manhã vi mais uma notícia no telejornal da record, falando sobre mais uma cidade na Paraíba que está com falta de água. Mas dessa vez, mostraram a revolta da população em relação a isso! Crianças chorando com sede e os pais indo pra porrada contra o 'segurança' da única sisterna com água potável da cidade, a qual o prefeito da cidade não autoriza a ninguém a abrir. Escolas estão paradas, as crianças que só iam pra escola por conta da merenda, nem isso tem mais!

A vida humana está sendo banalizada!!!

Vamos dar mais um alerta a população, pois nós, nas grandes cidades, já sofremos muito com o descaso dos governantes, as pessoas provenentes do nordeste, em grande maioria em situação deplorável, sofrem muito mais com isso!



Chega de impunidade! Vamos tentar manter notícias como essa na cabeça da população até a época das eleições, para que isso também pese na hora do voto!

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Ode a princesa

De repente...

O breu!

Não consigo ver um palmo diante de minha face...

De início... me vem um instinto que insiste em não mudar desde a infância...

Sinto medo, medo do escuro... bicho papão e outras coisas!

Para me proteger me enfio embaixo do edredon e fico lá, quase que em posição fetal, mesmo não estando dentro do ventre de minha mãe, sinto que ela me protege mesmo assim.

E isso me acalma.

Ao passar dos segundos, os meus olhos acostumam-se com essa nova situação.

Como um gato, as pupilas dilatam-se, para que mais luz entre por meus olhos.

E a tela começa a desenhar-se diante de meus olhos.

Por um instante até duvido se estou sonhando ou se ainda estou acordado.

Ergo minha cabeça para ter um melhor ângulo de visão.

Consigo ver, na extremidade na cama, um pé apoiado sobre ou outro... dando fim as pernas cruzadas semi-nuas, cobertas apenas pelo short. E os pés? Cobrem-se de meias, revelando talvez o seu lado burguês, o que não posso deixar de citar! (risos).

Nesse momento, já estou meio que em um transe, causado pela junção do sono com a imagem a minha frente.

Subindo um pouco mais o olhar, posso ver o que alguns poetas fantasiariam descrevendo como “uma saliência sensual”, mas que eu chamo de barriga (risos). A camiseta que completa a peça de dormir, está bem justa ao corpo, delineando cada curva que os meus olhos podem ver.

Ainda que cobertos, pelos braços e pela camisa, posso ver em meus pensamentos claramente seus seios desnudos. Junto a esse pensamento, vem o seu cheiro. Que me excita e acalma, numa mágica que talvez eu nunca possa compreender, mas ao bem da verdade, não faço a mínima questão de quebrar este encanto.

Os braços protegem seu colo, mas não me impedem de ver seu pescoço... queixo... boca.

A essa altura, meus olhos já acostumaram-se a escuridão, posso ver claramente as dobras de seus lábios. A pequena jóia em seu nariz ainda reflete um fraco reflexo da luz do luar.

Mas, quando menos espero, tenho uma surpresa. Quando chego aos olhos, me deparo com eles abertos, olhando pra mim. Ao notar a minha surpresa, o rosto dela abre um lindo sorriso, confessando um certo prazer em estar sendo observada. Fixo essa imagem em minha mente e fecho os olhos, como se pudesse assim, eternizar a imagem em meu cérebro.

Quando dei por mim, meu corpo já estava debruçado sobre a cama. Os lábios, distam apenas aluns centímetros dos dela. Os olhos, procuram um ponto fixo, tentando hipnotizar um ao outro. As mãos, se encontram e entrelaçam, acariciando uma a outra.

Lentamente, os lábios se tocam e eu posso sentir finalmente o gosto da boca da mulher que habita meus sonhos, mesmo quando estou acordado.

Do que houve depois disso... não me recordo ao certo. Só sei que hoje, acordei ao lado dela. Ela debruçada sobre meu corpo, acariciando meu rosto e sorrindo, sussurrando um bom dia. Eu olhava pra ela e não conseguia pensar mais em nada, pois a sensação de transe, ainda não passara. Só conseguia e só consigo, até hoje, sorrir e agradecer por tê-la em meus dias, tardes, noites, madrugadas e sonhos.

Obrigada por existir minha princesa!

Eu te amo!